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OPINIÃO

Vida com PROPÓSITO: existe liberdade no trabalho?

A autonomia financeira e a posição de comando nas organizações podem ser consideradas como liberdade?

Se você chegou a clicar neste artigo é porque certamente a sua experiência profissional lhe mostrou que existe uma grande diferença entre autonomia, poder aquisitivo e liberdade. Então, você é o meu leitor ou leitora ideal. É o tipo de profissional mais reflexivo para quem escrevi este texto.

Para ser bem transparente com você, aviso que não há uma resposta para esta pergunta do título. E digo mais. Se houvesse uma resposta seria, ela mesma, uma proposta contra a liberdade, uma vez que, pelo menos no dia de hoje, ao refletirmos sobre o que é independência, não precisamos, obrigatoriamente, depender de uma resposta. Depender de uma solução previa não é liberdade.

Este é o primeiro ponto importante. Porque a liberdade não é resposta. Liberdade é pergunta que se refaz em todos os momentos de conflito ou de escolha nas nossas vidas. Na trajetória profissional não é diferente. Na verdade, na história da filosofia ocidental, a ideia de liberdade permeia a maior parte das discussões sobre ética e as reflexões sobre a moral e a escolha de novos caminhos durante a experiência de existência. O ideário de liberdade tem a sua origem em uma questão que até hoje assola a humanidade.

A pergunta da liberdade é: o que – da nossa vida – está e o que não está no nosso controle?

Se temos ou não o controle da nau da nossa vida, se somos ou não livres e regidos pela razão ou por nossas paixões, estas foram as preocupações manifestas pelos gregos. Como diz o poeta Fernando Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Sobre a precisão ao conduzir a vida, os pensadores, liderados por Platão e Aristóteles, chegaram a três direções para pensarmos o controle sobre a boa vida.

Primeiro, eles observaram a existência do necessário. Segundo eles, a necessidade é determinada pela natureza. Por exemplo, é da natureza do gato agir como gato. Ele tem uma existência determinada pela sua necessidade natural de gato. O gato não faz escolhas, não tem angústia ou dilemas. Depois, para os pensadores, existiria o acaso. O acaso é o melhor amigo da fortuna, ou seja, da sorte ou do azar. O acaso é o que acontece, simplesmente. Por exemplo, você e seu cão estão no parque e você encontra uma nota de cem reais no chão. Os pensadores gregos também diziam que existia o possível. O possível não tem o mesmo sentido que adotamos no senso comum hoje. Na história da filosofia, o possível é tudo aquilo que depende da ação de uma pessoa para acontecer. O possível é provável que aconteça porque depende da ação de uma pessoa, que a partir de uma escolha, age, tomando uma iniciativa. O possível não existiria sem a sua ação. Sendo assim, a liberdade estaria mais próxima do campo do possível. Por exemplo, escrever um artigo é algo que, enquanto uma pessoa, tive a possibilidade de fazer. Eu poderia não ter escrito. Ou poderia ter escrito um outro texto. Mas pude realizar o que é possível para mim ao escrevê-lo. Exerci minha liberdade de dispor destas palavras e combiná-las nesta página. É muito provável que eu consiga publicar o artigo nesta plataforma.

Mas sabemos que as coisas não são tão simples assim e que na dinâmica do mundo, a sucessão de acontecimentos necessários, prováveis e possíveis operam em cadeia, um caos e com efeitos borboleta. Veja o exemplo que estamos enfrentando diante da pandemia. É claro que, muitas vezes, agimos não por escolha, nem movidos, necessariamente, pela natureza de nossos afetos, nem reagindo ao acaso. Neste sentido, mesmo com o nosso consentimento somos coagidos a fazer.

Quando somos coagidos a escolher uma alternativa em detrimento de outras possibilidades, podemos realizar esta escolha por orientação moral, pelo que aprendemos que é o certo com o grupo do qual fazemos parte, como por exemplo as normas da ética corporativa. Ou podemos ser submetidos a uma orientação superior que nos “faz fazer”. A filosofia chamou esta força de poder. Sendo pela moral, ou pela coação, o poder, representado na figura do líder, faz os seguidores fazerem. E podemos, deste modo, tanto atuar como aquele que manda, quanto atuar como aquele que trabalha e que deve obedecer. Muitas vezes, ficamos em uma posição intermediária. Mandamos em alguns, enquanto paralelamente somos comandados por outros.

Os critérios para a obediência podem ser vários: medo, obrigação, hierarquia, admiração, falta de opção, coerção, violência, autoridade, legitimidade, crenças, entre outras formas de submissão voluntária ou não. No ambiente organizacional, o critério é a hierarquia definida pelo organograma da empresa com a qual escolheu se juntar. Há situações em que um profissional pode se sentir desconfortável por executar uma ação que a liderança lhe impôs e entra em conflito com a decisão. O resultado da ação ordenada entraria, deste modo, em confronto direto com os seus princípios morais. A filosofia denominou isso de dilema moral. Neste momento, a sua liberdade entra em cheque.

Cabe aqui uma ressalva. Quando a submissão acontece porque o chefe trata um subordinado como se ele, ou se ela fossem desprovidos da sua liberdade de escolha, como se fossem uma coisa, um objeto, um número, manifestando total falta de respeito profissional, o que temos nestas situações é abuso de poder e o oposto da ética. Nestes caso, vemos o uso do privilégio da posição hierárquica para que se cometa um ato de violência em benefício próprio ou da empresa. Na etiqueta corporativa, tais práticas são chamadas de assédio e são passíveis de punição. Mesmo assim, elas existem e precisam ser combatidas.

Mas, voltemos a nossa reflexão sobre liberdade no trabalho.

No ambiente das organizações é possível sermos livres uma vez que devemos obedecer às regras organizacionais e a hierarquia?

Fora as questões de violência que mencionamos. A liberdade no trabalho pode ser questionada sim, pelo menos por cinco maneiras distintas:

Liberdade para criar – você sente que está usando seu potencial criativo nas suas atividades? Você tem tempo de aprender de formas múltiplas e de criar obras a partir destes aprendizados e da sua experiência?

Liberdade para pensar – você consegue refletir sobre possibilidades de agir de modo mais próximo do seu propósito de vida, da sua vocação? Consegue ver o impacto social da sua formação nas atividades que desenvolve? Você reflete sobre seu propósito?

Liberdade de agir – Você age motivado pelos elogios, pelo seu ego, pelo resultado da empresa, ou age motivado pelo seu propósito? Você tem autonomia para propor e executar atividades sobre as quais você conhece os impactos sobre as outras pessoas dentro e fora da empresa?

Liberdade de expressão – Você consegue expressar abertamente seus argumentos, ideias, questionamentos e experiência nas reuniões e nos fóruns de discussão da empresa? Você sente a sua opinião reconhecida pela liderança?

Liberdade para mudar – Você acredita que tem a possibilidade de mudar de opinião de trocar de rota, de seguir uma direção mais alinhada com seus princípios e valores?

Se você respondeu positivamente a pelo menos duas destas maneiras de reflexão sobre a liberdade, alegre-se. A celebração, então, fará parte do seu dia. Contudo esteja preparado, porque os dilemas na carreira, certamente o levarão a enfrentar as demais perguntas novamente e outra vez.

Se você respondeu negativamente para todas as questões, você encontra-se diante de uma questão ética e precisa fazer uma escolha e agir. Talvez a liberdade não seja uma discussão sobre o controle. Possivelmente, conduziria a uma reflexão sobre o quanto você se coloca no centro de responsabilização pelos seus sucessos e fracassos.

A liberdade talvez fosse algo mais livre. Talvez ela nos remeta a viver de modo a aceitar uma abertura para novos encontros, para outros acontecimentos, para sentir afetos por pessoas com jeitos diferentes de ver a vida. Provavelmente, olhando por esta bússola, a liberdade seria uma atividade em direção às novas possiblidades que sempre se apresentam. Assim, a liberdade não é ter uma vida profissional como “independência ou morte”, nem como “independência e sorte”. A liberdade talvez não seja a margem, ou um porto seguro. Talvez, ela não esteja nem no fundo, nem na superfície. Mas seja o conjunto das escolhas que fez e que faz, conscientemente, no percurso da sua trajetória.

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Sobre a autora

Sheila Magri é jornalista, co-fundadora e consultora de comunicação corporativa na Macob Comunicação . Conta com 25 anos de experiência em reputação corporativa, gerenciamento de crises e desenvolvimento de estratégias para engajamento de stakeholders de empresas. Foi CEO de agências multinacionais de Relações Públicas e Comunicação Estratégica. Treinou mais de quatro mil porta-vozes, entre eles: CEOs, CFOs, médicos, advogados, engenheiros, empreendedores sociais, diretores jurídicos, executivos de recursos humanos e de sustentabilidade, entre outros grupos de profissionais. Ministra palestras sobre storytelling profissional e valores corporativos.

É Mestre em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM, onde estudou reputação profissional, valores e ética corporativa. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Ética, Comunicação e Consumo – GPECC na ESPM. É professora de cursos sobre análise de discursos. A autora também estudou Filosofia na Universidade de São Paulo. 

Artigo originalmente publicado no LinkedIn em 7/09/2020

Por sheilamagri

Sócia-Consultora em Comunicação Corporativa e PR na MACOB | Especialista em Reputação 5.0 | Reputação Profissional | Mestre em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM - MSc | Jornalista

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