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VOCÊ SE SENTE UM NÚMERO NA EMPRESA?

Uma reflexão ética sobre a lógica do ranking, o culto à performance e o valor da vida.

Quando você se sente um número na empresa, começa a refletir sobre o valor da vida profissional. A desvalorização que você constata da sua chefia para com a sua dedicação, automaticamente, insere você fora do ranking dos mais imprescindíveis na organização.

No entanto, a vida não deveria ser ranqueada. Não é mesmo? Pensar na vida como passível de ser ranqueada seria admitir que existem vidas que valem mais do que outras. Um tema polêmico, sem dúvida.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define ranking como uma “classificação ordenada de acordo com critérios determinados”. A palavra vem do inglês rank. Trata-se de um verbo que significa “estar em posição alta, estar próximo ao chefe”.

Assim, indo para a vida profissional, parece que o assunto de ranquear vidas não gera tantos conflitos. Se você se considera um número, é porque sente que não se destaca no ranking de prioridades e pronto.

Existe sim no mercado um ranking implícito de vidas profissionais. Há consenso sobre quais posições hierárquicas de comando aumentam o passe do profissional. Existem idades consideradas adequadas para galgar certos cargos e promoções.

Alguns valem mais do que outros porque as suas funções estão no topo dos organogramas das empresas, as posições no Board, na liderança. E alguns ocupam posições estratégicas no topo de empresas que estão no topo do ranking das marcas. Outros valorizam seu currículo dando uma “aumentada” no cargo, ou na função anterior.

Apesar do discurso recomendável que preconiza a importância de todas as posições dentro das empresas, é certo que os colaboradores almejam sucesso e querem evoluir na carreira. Existe um culto à performance na reputação profissional. Pois o que está no topo das posições desejadas no ranking do mundo corporativo são as de liderança.

O ranking do seu cargo, de certa forma, valoriza a sua marca pessoal e contribui para a reputação profissional. E tem mais. Tem a questão do reconhecimento. Quanto mais somos reconhecidos pelos prêmios de alguma instituição, com a qual não temos familiaridade, maior o valor social atribuído a esta premiação que recebemos. O sociólogo Pierre Bourdieu dizia que “os circuitos de consagração são tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”. Quanto mais alta a sua posição, maior seu capital social e simbólico e maior a chance de ser homenageado.

No entanto, cada vez mais, a lógica da vida ranqueada vem sendo combatida por uma visão mais colaborativa de relação entre as pessoas. Muitos profissionais dizem preferir trabalhar em ambientes menos agressivos, menos competitivos e com estruturas de trabalho e de equipes mais multidisciplinares e horizontais.

Mas por que tratamos vidas como números?

Vimos que, durante a pandemia, formadores de opinião combateram o tratamento numérico que estava sendo dado às vítimas fatais da Covid-19. A contabilização de mortes reforça os sentidos de desvalorização das vidas levadas pelo novo coronavírus. A pandemia nos mostra que vivemos pautados pela quantificação de dados e que valorizamos mais a contagem dos números de mortos do que as vidas de pessoas, efetivamente perdidas.

Os dados de pesquisas, muitas vezes, estão dispostos em forma de ranking e estabelecem posições como uma representação objetiva e fiel da realidade. Entretanto, os dados não são a realidade pura, são informações coletadas segundo uma ordem de observação predeterminada por um projeto de pesquisa. Assim, o resultado de um ranking parece representar a totalidade sobre uma situação, ou performance, quando trata de um recorte estudado, entre tantas outras possibilidades.

De alguma forma, estamos todos submersos em uma espécie de lógica do ranking, em uma forma de se posicionar a partir de comparações entre pessoas, critérios e dados.

O que está no topo do ranking é, portanto, a própria lógica do ranking.

Nos critérios dos rankings, os valores ou juízos de valor, não são os mesmos. Cada ranking tem os seus próprios critérios, suas razões de existir. Cada critério é também apenas um recorte da realidade fixado a partir de um interesse específico da pesquisa. Portanto, o mínimo que se espera é que os critérios fiquem bem explicitados e que reflitamos sobre eles. Mas isso raramente acontece.

A matemática dos rankings permeia ainda diversas atividades cotidianas do mundo corporativo, incluindo as entrevistas de emprego, as candidaturas para uma promoção, a participação em concursos.

Todo ranking que classifica a performance de profissionais busca a sua legitimação em afirmar pressupostos objetivos e estabelecem uma ideia de igualdade de condições entre os participantes, uma imparcialidade no processo de escolha do júri ou dos votantes e a excelência dos que atingem o topo. No entanto, sabemos que existem exceções, preferências e privilégios.

O filósofo Vladimir Safatle em seu livro Circuito dos Afetos aponta para uma outra questão ética que envolve o culto à performance. Ele afirma que pode existir uma flexibilização ou adequação de critérios e das normas, justamente para se atender ao hábito da competição e a sua própria manutenção.

Convém agora perguntarmos sobre o que ficou de fora do ranking? Seriam apenas os dados rejeitados? Ou seriam as vidas que não foram, por alguma razão consideradas, ordenadas e adequadas aos padrões observados e contabilizados?

Neste sentido, os exageros desta logica do ranking e o culto à performance tem contribuído para o aumento da pressão no trabalho que causa os problemas de saúde mental nos colaboradores. Tal fato tem levado muitas empresas a reforçar os discursos voltados para a valorização do ser humano e do propósito de vida.

Ficamos, então, com a sabedoria de Aristóteles que diz que:

“se a alma participa da vida, e não é possível que nenhum número viva, a alma não poderá ser uma espécie de número”.

Sobre a autora:

Quando você se sente um número na empresa, começa a refletir sobre o valor da vida profissional. A desvalorização que você constata da sua chefia para com a sua dedicação, automaticamente, insere você fora do ranking dos mais imprescindíveis na organização.

No entanto, a vida não deveria ser ranqueada. Não é mesmo? Pensar na vida como passível de ser ranqueada seria admitir que existem vidas que valem mais do que outras. Um tema polêmico, sem dúvida.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define ranking como uma “classificação ordenada de acordo com critérios determinados”. A palavra vem do inglês rank. Trata-se de um verbo que significa “estar em posição alta, estar próximo ao chefe”.

Assim, indo para a vida profissional, parece que o assunto de ranquear vidas não gera tantos conflitos. Se você se considera um número, é porque sente que não se destaca no ranking de prioridades e pronto.

Existe sim no mercado um ranking implícito de vidas profissionais. Há consenso sobre quais posições hierárquicas de comando aumentam o passe do profissional. Existem idades consideradas adequadas para galgar certos cargos e promoções.

Alguns valem mais do que outros porque as suas funções estão no topo dos organogramas das empresas, as posições no Board, na liderança. E alguns ocupam posições estratégicas no topo de empresas que estão no topo do ranking das marcas. Outros valorizam seu currículo dando uma “aumentada” no cargo, ou na função anterior.

Apesar do discurso recomendável que preconiza a importância de todas as posições dentro das empresas, é certo que os colaboradores almejam sucesso e querem evoluir na carreira. Existe um culto à performance na reputação profissional. Pois o que está no topo das posições desejadas no ranking do mundo corporativo são as de liderança.

O ranking do seu cargo, de certa forma, valoriza a sua marca pessoal e contribui para a reputação profissional. E tem mais. Tem a questão do reconhecimento. Quanto mais somos reconhecidos pelos prêmios de alguma instituição, com a qual não temos familiaridade, maior o valor social atribuído a esta premiação que recebemos. O sociólogo Pierre Bourdieu dizia que “os circuitos de consagração são tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”. Quanto mais alta a sua posição, maior seu capital social e simbólico e maior a chance de ser homenageado.

No entanto, cada vez mais, a lógica da vida ranqueada vem sendo combatida por uma visão mais colaborativa de relação entre as pessoas. Muitos profissionais dizem preferir trabalhar em ambientes menos agressivos, menos competitivos e com estruturas de trabalho e de equipes mais multidisciplinares e horizontais.

Mas por que tratamos vidas como números?

Vimos que, durante a pandemia, formadores de opinião combateram o tratamento numérico que estava sendo dado às vítimas fatais da Covid-19. A contabilização de mortes reforça os sentidos de desvalorização das vidas levadas pelo novo coronavírus. A pandemia nos mostra que vivemos pautados pela quantificação de dados e que valorizamos mais a contagem dos números de mortos do que as vidas de pessoas, efetivamente perdidas.

Os dados de pesquisas, muitas vezes, estão dispostos em forma de ranking e estabelecem posições como uma representação objetiva e fiel da realidade. Entretanto, os dados não são a realidade pura, são informações coletadas segundo uma ordem de observação predeterminada por um projeto de pesquisa. Assim, o resultado de um ranking parece representar a totalidade sobre uma situação, ou performance, quando trata de um recorte estudado, entre tantas outras possibilidades.

De alguma forma, estamos todos submersos em uma espécie de lógica do ranking, em uma forma de se posicionar a partir de comparações entre pessoas, critérios e dados.

O que está no topo do ranking é, portanto, a própria lógica do ranking.

Nos critérios dos rankings, os valores ou juízos de valor, não são os mesmos. Cada ranking tem os seus próprios critérios, suas razões de existir. Cada critério é também apenas um recorte da realidade fixado a partir de um interesse específico da pesquisa. Portanto, o mínimo que se espera é que os critérios fiquem bem explicitados e que reflitamos sobre eles. Mas isso raramente acontece.

A matemática dos rankings permeia ainda diversas atividades cotidianas do mundo corporativo, incluindo as entrevistas de emprego, as candidaturas para uma promoção, a participação em concursos.

Todo ranking que classifica a performance de profissionais busca a sua legitimação em afirmar pressupostos objetivos e estabelecem uma ideia de igualdade de condições entre os participantes, uma imparcialidade no processo de escolha do júri ou dos votantes e a excelência dos que atingem o topo. No entanto, sabemos que existem exceções, preferências e privilégios.

O filósofo Vladimir Safatle em seu livro Circuito dos Afetos aponta para uma outra questão ética que envolve o culto à performance. Ele afirma que pode existir uma flexibilização ou adequação de critérios e das normas, justamente para se atender ao hábito da competição e a sua própria manutenção.

Convém agora perguntarmos sobre o que ficou de fora do ranking? Seriam apenas os dados rejeitados? Ou seriam as vidas que não foram, por alguma razão consideradas, ordenadas e adequadas aos padrões observados e contabilizados?

Neste sentido, os exageros desta logica do ranking e o culto à performance tem contribuído para o aumento da pressão no trabalho que causa os problemas de saúde mental nos colaboradores. Tal fato tem levado muitas empresas a reforçar os discursos voltados para a valorização do ser humano e do propósito de vida.

Ficamos, então, com a sabedoria de Aristóteles que diz que:

“se a alma participa da vida, e não é possível que nenhum número viva, a alma não poderá ser uma espécie de número”.

Referências:

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: CosacNaify, 2015

Artigo publicado originalmente no Ética de Bolso em 06/11/2018. Segue link: https://eticadebolso.com.br/o-que-esta-no-topo-do-ranking/

Por sheilamagri

Sócia-Consultora em Comunicação Corporativa e PR na MACOB | Especialista em Reputação 5.0 | Reputação Profissional | Mestre em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM - MSc | Jornalista

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